Dia 14

Medicina tradicional Caseira


Nos tempos de outrora, quando os médicos eram raros e o tempo e o dinheiro escassos, era à sabedoria do povo que se recorria. Foi dessa necessidade que a medicina caseira ganhou força e se tornou parte essencial do cuidado diário. Nesses contextos rurais, cada aldeia tinha sempre alguém conhecedor de práticas antigas (Ensalmador), capaz de aliviar dores e males através de gestos simbólicos, orações murmuradas e rituais transmitidos de geração em geração. Entre essas práticas destacava-se o talhar, uma técnica muito comum e considerada eficaz pela população.

Talhava-se o bicho, para tratar infecções ou inflamações tidas como “coisa má”; as impigens, quando surgiam manchas ou irritações na pele; o pé aberto, dor muito forte no pé causada por exemplo por uma entorse; a ciática, cujas dores incapacitantes eram aliviadas por palavras e toques precisos; o ar, um mal invisível mas temido, associado a sustos, quebras de força ou indisposições repentinas; e o farfalho, uma inflamação na língua que dificultava a fala e a alimentação.

No caso específico do pé aberto, o ritual era minucioso: colocava-se água a aquecer numa chicolateira de barro, que, assim que estava quente, era despejada numa bacia pequena. A chicolateira era colocada dentro da bacia com o fundo virado para cima, e o doente apoiava o pé sobre ela.

Se o mal era do pé aberto, a água ia sendo absorvida lentamente pela púcara. A talhadeira (ou ensalmador), munida de uma agulha com linha enfiada sem nó e um novelo volumoso, passava a agulha de banda a banda, conversando com o doente:

— Eu te coso, pé aberto; fio torto.
— É isto mesmo que eu coso — respondia o molestado.
— E em louvor de S. Silvestre, tudo que eu faço neste pé preste, e nosso Senhor Jesus Cristo seja o verdadeiro mestre pelo poder da Virgem Maria.

O ritual terminava com a reza de um Pai Nosso e uma Ave Maria, unindo gestos, palavras e fé numa prática que refletia a crença profunda na intervenção espiritual e no poder da tradição popular para a cura.