Dia 15
A História de Recarei
A povoação de Recarei, hoje freguesia do Concelho de Paredes, é muito antiga e a sua origem remonta pelo menos ao século XIII. Esta localidade aparece já referenciada numa tabela constante do livro “Freguesias da Diocese do Porto” do Pe. Domingos A. Moreira como sendo curato do arcediago de Aguiar de Sousa já no século XII.
Durante um período que se encontra ainda por determinar, ou por balizar cronologicamente, os lugares que hoje compõem a freguesia de Recarei estiveram até meados do século XIX anexados à freguesia vizinha de Sobreira.
O decreto régio que em 1855 desanexara de forma definitiva tais povoações, constituindo-as como freguesia e paróquia autónomas, refere que o templo paroquial aí existente – tendo como padroeira Nossa Senhora do Bom Despacho – “já em outro tempo serviu de parochia”, o que parece indicar a relativa autonomia – pelo menos do ponto de vista religioso ou paroquial – que Recarei teve muito antes de 1855.
Parece ainda apontar nesse mesmo sentido o tratamento formal dado à localidade em documentos antigos (tributários p. ex.), onde Recarei e seus lugares ao invés de surgirem inseridos nas partes relativas à paróquia/freguesia de Sobreira, surgem antes com organização formal própria, como se se tratasse de uma localidade igualmente autónoma e independente.
A História desta freguesia – hoje “Vila” – encontra-se intimamente ligada às comunidades monásticas de Cête e de Paço de Sousa, ou não fossem estas as maiores proprietárias dos prédios urbanos e rústicos existentes em Recarei até à extinção das Ordens Religiosas. Não admira, por isso, que o primeiro padroeiro de que há registo nesta localidade tenha sido a invocação cristológica que ainda hoje preside à comunidade paroquial de Paço de Sousa: São Salvador.
A invocação como titular ou padroeiro da ermida medieval outrora edificada no “lugar da Costa de Recarei” – de que não resta vestígio, erguendo-se hoje no local a igreja paroquial (remodelada profundamente no século XX) – não chegaria contudo ao século XIX, pois já em 1758 se dava conta da invocação da “Senhora do Bom Despacho, Santa Águeda e Santa Apolónia” apesar de, em data posterior, o livro dos “Títulos do Arcediago de Aguiar de Souza anexo ao Deado do Porto” (1796) nos relatar que a “Cappella S. Salvatoris de Requerey” estava anexa à “Ecclesia S. Petri de Sovereira” e pagava ao bispado “De cera unam libram, de mortuariy 3 maravetinos, de milio 3 sextarios”.
No século XIX, Recarei foi local de passagem – e de paragem – das tropas conflituantes na Guerra Civil (1828-1834), designadamente no decurso das operações militares do memorável Cerco do Porto. Foi nesta localidade que, segundo Simão Soriano, o coronel George Lloyd Hodges recebeu a informação de que as tropas leais a D. Miguel – absolutistas – haviam atravessado o Rio Douro sob as ordens do Visconde de Montalegre.
Foi também aqui que pela tarde do dia 20 de Julho de 1832, bivacaram as tropas do 2º Visconde de Santa Marta, facto que, segundo a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, constituiu uma grave ameaça para a cidade do Porto, na altura já ocupada pelas tropas leais a D. Pedro. Três dias depois, a pouca distância de Recarei, dar-se-ia a famosa Batalha de Ponte Ferreira, de que nenhuma das partes em confronto terá saído verdadeiramente vencedora. Ainda no âmbito destas movimentações militares, mais concretamente no dia 6 de Agosto seguinte, o Visconde da Régua decide estabelecer em Recarei o seu quartel-general.
Nesta altura (década de 30 do século XIX), os lugares de Recarei estavam já – não há dúvidas – anexados à freguesia e paróquia de Sobreira, mas de resto por muito pouco tempo.
As povoações da zona geográfica mais a oeste da freguesia sobreirense arvoram-se em entidade administrativa autónoma nos anos de 1855 (freguesia) e 1856 (paróquia), facto que é facilmente explicável por três fatores: a progressiva autonomia quanto a serviço pastoral e centralidade religiosa (com centro de culto, cura e missa regular); crescimento demográfico, associado ao primeiro fator e que já permitia reunir uma côngrua que sustentasse pároco próprio (a população dos lugares de Recarei já equivalia aos demais da restante freguesia da Sobreira); isolamento, ou dificuldades de comunicação, devido à distância e à intransitabilidade de caminhos rudimentares e cortados por cursos de água entre os lugares de Recarei e a igreja, ou centro, de Sobreira. Assim o comprova o teor do decreto de 27 de Novembro de 1855 passado pelo Rei D. Pedro V e que cria a freguesia, bem como o decreto episcopal de 1 de Fevereiro de 1856 que cria a paróquia.
Importa ainda referir que aquando da fundação – ou «refundação» – desta localidade, tal acontecera já no Concelho de Paredes. Recorde-se que este concelho fora criado apenas em 1836, sendo que até então todas as suas freguesias, bem como grande parte das terras dos concelhos confinantes se encontravam inseridas no vasto e histórico concelho/julgado de Aguiar de Sousa, entretanto extinto.
No dia 1 de julho de 2003, Recarei foi elevada à categoria de vila.
