Dia 17

A «MAIOR DAS RIQUEZAS» DE RECAREI – Ribeiros e suas nascentes

Poço Cavaleiro – Recarei


Num anterior artigo dedicado a uma das epidemias do séc. XIX, o provável surto de febre tifoide de 1868, fizemos menção às águas estagnadas dos poços, como potencial origem de um grave problema sanitário que provocou na época uma elevada mortandade em Recarei. Isto acontecia sobretudo porque em meses quentes e de seca prolongada muitas das nascentes acabavam por secar, e a água dos poços, que a população consumia, era já líquido estagnado, impuro, que não se renovava. E daqui se infere a vital importância que tinham essas fontes, as nascentes e os ribeiros da nossa terra para a população em geral, quando faltavam ainda largas décadas até à chegada de água tratada e canalizada a suas casas.

Aquando da elaboração do livro «Villa Recaredi», fizemos um levantamento de todos os ribeiros que ainda existiam ou que ainda era possível identificar no nosso espaço geográfico. Foram então descritos um total de 15 ribeiros, com indicação do nome pelo qual eram conhecidos, do local onde nasciam e onde desaguavam:

Três ribeirinhos – três pequenos cursos de água a curta distância uns dos outros, que nascem na Serra Queimada (ou Regadia) e desaguam no ribeiro de Vale de Cervas.

Ribeiro de Vale de Cervas – nasce na serra, tem vários pequenos afluentes e desagua no Rio Sousa.

Ribeiro do Cavaleiro – nasce na serra, passa pelo «famoso» Poço Cavaleiro (na foto), que lhe dá nome, e desagua no ribeiro de Vale de Cervas.

Ribeiro de Cassurrães – nasce na serra e desagua no ribeiro de Vale de Cervas.

Ribeiro da Carvalhoa – nasce na serra e desagua no ribeiro de Cassurrães.

Ribeiro de Vale de Ovelha – nasce na serra e desagua no ribeiro das Presas de Várzea.

Ribeiro das Presas de Várzea – nasce na serra e desagua no Rio Sousa.

Ribeiro de Albolhão – nasce em Terronhas e desagua no ribeiro de Vale de Cervas.

Ribeiro da Fervença – nasce no Outeiro e desagua no Rio Sousa.

Ribeiro das Hortas – nasce no Outeiro, desagua no Rio Sousa, junto a Areias.

Ribeiro de Bustelo – nasce na Serra de Pias (ou do Raio) e bifurca-se em Bustelo.

Ribeiro da Carvalhosa – nasce da bifurcação do ribeiro de Bustelo.

Ribeiro das Bengadas – tal como o anterior, nasce da bifurcação do ribeiro de Bustelo.

Além das suas funções utilitárias e de sobrevivência mais imediatas, as águas da nossa terra encerram ainda outras relevâncias culturais, associadas a crenças populares e lendas, que também não deixam de enriquecer a nossa história e a nossa cultura coletiva.

Segundo o Dr. José do Barreiro, algures em finais do séc. XIX ou princípios do séc. XX, um padre da família do Alferes, Pe. José Joaquim da Rocha Pinto (1834-1921), descobriu em Recarei «uma nascente de águas sulfurosas enquanto buscava águas de rega», mas que, infelizmente, por lhe terem dito que já existiam aqui perto umas águas termais de «fama universal» (Entre-os-Rios), ele decidiu desprezar o achado.

Outras águas há que granjearam fama de «curativas», ou especialmente aconselháveis pela sua leveza, como a da fonte de Seixagude, ou «bacia do Menino Jesus», para onde, segundo os mais antigos, acorriam pessoas vindas de longe, sob indicação dos próprios médicos.

Mas fosse para prover campos de cultivo ou para consumo direto, o que é certo é que todo este património natural de ribeiros, nascentes, fontes de água pura e cristalina constituiu-se sempre como uma das maiores, senão mesmo a maior das riquezas de Recarei. Sem eles, sem as suas águas, sem os cuidados dos que nos antecederam na sua canalização e aproveitamento, nada subsistiria e não teríamos certamente, enquanto comunidade, enquanto povoação, chegado até aqui.

Texto: Ivo Rafael Silva – 2020
Bibliografia: Villa Recaredi (2008), Recarei e o Sacerdócio (2010) e Monografia de Paredes (1922).