Dia 18

A tradição da “queima do maio”

A Queima do Maio (ou “Queima do Maio Velho”) em Recarei, freguesia do concelho de Paredes (distrito do Porto), é uma tradição popular muito antiga e ainda bastante viva, que marca a passagem do mês de maio para junho e celebra a chegada do verão.

Como funciona a tradição em Recarei:

  • Durante todo o mês de maio, os rapazes solteiros da aldeia (ou dos diferentes lugares/bairros de Recarei) andam a juntar madeira velha (móveis estragados, paletes, portas, janelas, etc.). Antigamente usava-se sobretudo mato seco, giestas e caruma, mas hoje predomina a madeira reaproveitada.
  • Constroem um grande boneco de madeira (o “Maio” ou “Maio Velho”), normalmente com cerca alguns metros de altura, vestido com roupa velha, às vezes com uma máscara ou cabeça feita de saco ou pano. O boneco representa o mês de maio que está a terminar.
  • Na noite de 31 de maio para 1 de junho (ou no fim de semana mais próximo), à meia-noite em ponto, o boneco é queimado numa grande fogueira no largo principal ou num terreno da aldeia.
  • A queima é acompanhada por muita animação: marchas populares, comes-e-bebes (sardinhas assadas, caldo verde, vinho), música, fogo-de-artifício e bailarico até de manhã.

Significado simbólico:

  • É uma tradição de purificação e renovação: queimar o “velho” (o mês que passou, as coisas gastas) para dar as boas-vindas ao novo (o verão, o mês de junho).
  • Em tempos mais antigos acreditava-se que o fumo afastava os maus espíritos e protegia as colheitas.
  • Tem também um carácter de convívio intergeracional e de identidade local — é uma das noites mais importantes do ano em Recarei.

As “maias” nas portas e janelas”

O ser humano sentiu desde tempos remotos a necessidade de intervir de alguma forma no tempo e, sobretudo, na mudança do mesmo. Ao longo de séculos, as comunidades foram inventando ritos e atos simbólicos que acreditavam serem propiciadores daquilo de que mais necessitavam. Assim sucedeu relativamente à mudança das estações do ano, em particular, neste caso, ao fim da invernia e à abertura primaveril. Com a conclusão da primeira, encerrava-se a obscuridade, o frio, a menor fertilidade, dando lugar a um tempo renascido e florido, mas sobretudo produtivo, frutífero, abundante e também celebrativo. Para que esta desejada mudança se efetivasse, o Homem sentiu a necessidade de agir, sozinho ou de forma coletiva e comunitária, produzindo ritos que com naturais variações e mutações ao longo do tempo acabariam por chegar aos nossos dias. Esta é a essência de várias e diversificadas práticas ancestrais de cariz profiláctico e propiciatório conhecidas como «tradições de Maio». Disso mesmo são exemplos a colocação das maias (giestas) para «impedir a entrada o mal», ou a famosa «queima do Maio» – e o Maio é uma entidade malévola, não o mês do calendário -, que o fogo consome, deixando apenas as cinzas que fertilizam a terra.

Estes são apenas dois casos, duas variantes de uma multiplicidade de actos que têm sempre o mesmo fim: afastar o mal, exaltar a fertilidade e a abundância. A entidade malévola tem vários nomes e/ou figurações (Maio, Burro, etc.) e na nossa região chama-se-lhe «carrapato», que é o mesmo que «carraça», que ameaçava entrar nas casas ou cortes dos animais, mas cuja invasão poderia ser evitada ou impedida com a colocação de giestas floridas nas portas ou janelas. Na prática, a flor não afastava nem afasta por si só o pequeno insecto, se de um mero inseto se tratasse. Mas sucede que estamos no domínio meramente simbólico, em que o que se trata é de «afastar o mal», que é imaginário, combatido de resto com uma defesa também ela imaginária, sob a forma de uma flor, tratando-se de uma prática com raízes históricas profundissimas e que foi sendo replicada ao longo dos tempos.

Como aconteceu de resto em tantas outras situações, o catolicismo dominante tratou de buscar formas de cristianizar práticas que, como esta, tinham origens pagãs. Mais fácil do que combater tradições tão enraizadas nas populações, era dar-lhes um outro significado de acordo com os seus propósitos doutrinais. Proclamou-se então que a razão pela qual se punha giestas nas portas e janelas tinha que ver com um evento lendário «do tempo em que Cristo andava pelo mundo». E rezava a lenda que quando os Judeus procuravam Jesus para o matar, subornaram um habitante para que denunciasse a presença do Messias colocando um ramo de giestas na porta da casa onde ele se encontrasse. Sucedeu, porém, que a trama fora descoberta pelos cristãos, que para despiste dos que procuravam Jesus colocaram as ditas giestas em todas as portas e janelas de todas as casas. E assim se «afastou o mal».

Ivo Rafael Silva – 2020